Perplexidade e Silêncio
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A resenha de hoje é um livro de fantasia cheio de dimensões paralelas, que promete uma leitura intrigante (além da capa linda, que chamou muito minha atenção). Mas será que a história entrega o que promete? É o que vamos discutir aqui hoje com a resenha de "As Dez Mil Portas" de Alix E. Harrow.

Fiquei interessada em ler Alix E. Harrow quando ela ganhou alguns prêmios literários com o conto que deu origem a este livro, que também foi sua primeira obra publicada, em 2019. 

"As Dez Mil Portas" é narrado em primeira pessoa por January Scaller no início do século XX (1900-1910), quando o mundo estava passando por uma fase de modernização e avanço de algumas tecnologias importantes. January, orfã de mãe, vive isolada em uma mansão aos cuidados do Sr. Locke, seu guardião oficial enquanto o pai viaja pelo mundo coletando itens valiosos que serão vendidos e/ou colecionados pelo Sr. Locke. 
January se sente muito sozinha e entediada na grande mansão, sem nada o que fazer, até o dia em que descobre uma porta azul no jardim, porta esta que rapidamente a leva a uma outra dimensão. A partir daí, January se envolve em uma missão pessoal de encontrá-la novamente, até que recebe a notícia que seu pai morreu, ao mesmo tempo em que ela encontra um livro que explica tudo o que está acontecendo, das portas ao desaparecimento do pai.

Sendo curta e grossa, não gostei do livro, e vou explicar porquê.
Uma confusão sem fim de histórias dentro de histórias dentro de outras histórias. O principal motivo de não ter gostado deste livro é que ele foi escrito de uma forma muita confusa. Temos a narrativa de January, em primeira pessoa; depois, temos outra narrativa em primeira pessoa, que é o livro que seu pai escreveu para ela, o tal livro que ela encontra quando ele supostamente morre; aí, chega uma terceira narrativa, em terceira pessoa, da personagem Adelaide; e, por fim, tem as micro-histórias de todas as portas encontradas ao longo da trama e o vai-e-vem entre as diversas dimensões paralelas. 
Eu fiquei perdida e entediada e, várias vezes ao longo da leitura, eu já não sabia mais quem estava narrando, de onde, quando e com que propósito. O conteúdo de cada narrativa não é dos piores, não me entendam mal, mas a edição e conexão de todos os pontos deixou muitíssimo a desejar. 

Os personagens coadjuvantes são muito melhores que os principais - Samuel e Jane.
Samuel, um amigo de infância de January, apaixonado por ela desde criança, decide segui-la através das portas enquanto ela procura pelo pai. Eu ia gostar muito mais do enredo se ele tivesse sido contado pelo ponto-de-vista de Samuel (ou do cachorrinho de January), porque January, em si, é chatíssima. 
Jane, uma moça enviada pelo pai de January para cuidar dela, é maravilhosa e merecia muito, muito, muito mais espaço. Aliás, ela merecia um livro só dela. Vinda de uma das portas, onde deixou dois maridos e uma esposa, Jane era uma caçadora que se vê presa numa mansão enorme com uma criança chata, esperando pelo dia que sua porta será reaberta e ela poderá voltar para casa.
Eles aparecem pouco, o que é uma lástima, porque eles eram as únicas personagens interessantes em todo o livro. Os supostos vilões - Sr. Locke e um outro que sequer lembro o nome, de tão irrelevante - foram tão mal escritos que chega a doer. Faltou muito desenvolvimento de personagem - saudades do mestre Brandon Sanderson, esse sim sabe escrever bons personagens.

A discussão racial/social mal conduzida também me incomodou muito. Eu aprecio que Alix tenha tentado trazer este tema para a história, uma vez que January, seu pai, Samuel e Jane sofrem preconceito por não serem "homens brancos ricos e privilegiados" em sua sociedade, estes últimos representados pelo Sr. Locke e seus colegas colecionadores. Mas, assim como os próprios personagens, este tema foi mal explorado pela escritora, que se limitou a comentar, aqui e ali, situações em que eles foram vítimas de tais preconceitos, porém sem grande conexão com a história geral. No final das contas, achei que este ponto ficou fraco no enredo, carecendo de uma melhor amarração com o resto.

E, por fim, o livro deveria se chamar "As dez mil analogias". Sério, qual o problema que Alix tem com analogias? Meu pai do céu, são centenas delas ao longo do livro, todas elas muito forçadas, ridículas até, o que deixa a leitura ainda mais chata. Eu me pegava rindo cada vez que uma analogia aparecia e até li algumas delas em voz alta para o meu marido, tamanha minha indignação.

Por tudo isso, como vocês podem perceber, não é uma leitura que recomendo.
Se você gosta de livros sobre dimensões paralelas, sugiro você conferir este post: Top 5 | Cinco livros sobre dimensões paralelas

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

 

Estes dias percebi que os meus livros favoritos ganharam este posto porque tem excelente coadjuvantes sustentando a história. E, de forma geral, eu me conecto mais com estes personagens do que com os protagonistas que, com algumas exceções, tendem a cair em clichês, sobretudo em livros de fantasia. Por isso, resolvi fazer um post dedicado a eles, aos meus coadjuvantes favoritos.

Trilogia Scythe, de Neal Shusterman
A série se passa em um futuro distante do nosso, onde a civilização alcançou um status de utopia. Nesta civilização, os humanos alcançaram a imortalidade e todos os nossos problemas - pobreza, miséria, fome, doenças, crimes - foram solucionados. Toda a Terra é controlada pela Nimbo-Cúmulo, uma inteligência artifical perfeita que jamais comete erros em seus cálculos e movimentos e, por causa dela, não existem mais governos, política ou leis.
Para controlar o excesso de população na Terra, existem os Ceifadores. Eles são uma entidade à parte da Nimbo-Cúmulo e são os responsáveis por coletar - ou seja, matar - pessoas, de acordo com estatísticas de controle populacional.
Os protagonistas, Rowan e Citra, são bem escritos, mas eles não me cativaram tanto quanto os coadjuvantes desta trama - os Ceifadores Farraday e Curie, mentores de ambos, e o melhor amigo de Rowan, Tiger. A personalidade dos Ceifadores foi muito bem desenvolvida e eles adicionam profundidade à história que, sem eles, seria um romance meio bobo entre dois adolescentes. 
Para ver todas as resenhas da trilogia, navegue pelos links abaixo:
Trilogia Scythe, Vol.1: Ceifador, de Neal Shusterman
Trilogia Scythe, Vol. 2: A Nuvem, de Neal Shusterman
Trilogia Scythe, Vol. 3: O Timbre, de Neal Shusterman

Série A Roda do Tempo, de Robert Jordan
Cada vez que eu tento falar sobre a minha série preferida, meu coração até dispara. Às vezes não sei bem nem por onde começar, mas posso garantir que os coadjuvantes desta série são, de forma geral, maiores e melhores que o protagonista, o herói da saga.
Jordan criou um mundo extremamente detalhado, complexo e criativo - e daí surgem as comparações com Tolkien. Há um grande número de personagens, mas, ao contrário do que acontece normalmente, não as confundimos e nem nos perdemos nas referências, pois há muita coesão entre as estórias, as personagens e os capítulos.
Há diversos povos e culturas ao longo dos livros, que são apresentados ao leitor conforme as personagens percorrem o mundo em busca de completar suas próprias missões. As missões são interligadas, pois fazem parte da Roda do Tempo, um elemento análogo ao Destino, que tece um padrão que ninguém pode alterar.
Eu gosto particularmente de Perrin, um dos melhores amigos do protagonista Rand al'Thor, e de Lan, o escudeiro/protetor de uma sacerdotisa chamada Moiraine. Eu vibrava cada vez que eles apareciam na trama e me conectei muito com eles.
Para saber mais sobre os livros, veja abaixo:
Sugestão de Leitura | A Roda do Tempo de Robert Jordan
Já Li #32 - A Roda do Tempo, Vol.5: As Chamas do Paraíso, de Robert Jordan
Sugestão de Leitura | A Roda do Tempo, Vol. 6: O Senhor do Caos, de Robert Jordan

Skyward - Conquiste As Estrelas, de Brandon Sanderson
É lógico que Brandon Sanderson estaria nessa lista, ele que é o mestre - mais que mestre, O Rei - em construir personagens maravilhosos. Precisei me segurar para não sugerir uma dezena de livros dele, então escolhi a obra mais recente.
"Skyward - Conquiste as Estrelas" é o primeiro volume do que será uma tetralogia sobre a incrível personagem feminina Spensa Chaser, codinome Spin. O livro se passa em um planeta chamado Detritus, onde os seres humanos buscam refúgio em cavernas dos ataques de alienígenas chamados Krell. Detritus é envolto em satélites quebrados, claraboias, pedaços de metal e outros itens de tecnologia antiga e esquecida. Os Krell se aproveitam desta órbita poluída para atacarem os humanos de surpresa.
Para mim, quem roubou a cena é M-Bot, uma inteligência artificial que Spensa encontra nos escombros de uma nave e que tem uma personalidade deliciosa. Eu amei cada parte que ele aparece. Se você quiser ver a resenha completa, clique aqui.

Trilogia Wayfarers, de Becky Chambers
Esta é outra trilogia que eu amei do começo ao fim, sobretudo por causa dos coadjuvantes incríveis que existem ao longo da trama.
A premissa da trilogia é que o cosmos é governado pelo Galactic Commons (GC). É este governo, que contém um representante de cada planeta, que estipula quais são as regras de navegação e comércio através do espaço sideral. Assim, para viajar longas distâncias, as naves podem acessar uma subcamada da matéria-escura e, através desta, criar um túnel, criando um buraco de minhoca artificial e bastante perigoso.
Oito planetas compóem o GC: Terra, Marte, Aganon, Hagarem, Hashkath, Porto Coriol, Risheth e Sohep Frie.
Dentro desse contexto, a estória se passa a bordo de uma nave chamada Wayfarer que contém seres de todos os contatos de GC, que é o que torna tudo tão rico e interessante. Me apaixonei, principalmente, por Sissix, do planeta Aandrisk, que eu garrei um crush imediato.
Se você quer saber mais sobre a trilogia, veja as resenhas abaixo:
Sugestão de Leitura | Wayfarers, Vol.1: A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers
Sugestão de Leitura | Wayfarers, Vol. 2: A Vida Compartilhada em Uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
Já Li #93 - Wayfarers, Vol. 3: Record of a Spaceborn Few, de Becky Chambers

A Crônica do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss
A maior prova de que Rothfuss criou uma excelente coadjuvante é que ela - Auri - virou a protagonista de seu próprio livro, "A Música do Silêncio".
A Crônica do Matador do Rei é uma triologia composta pelos seguintes títulos: 1. O Nome do Vento; 2. O Temor do Sábio e 3. As Portas de Pedra (título provisório, pois Patrick ainda está escrevendo o terceiro volume). Cada livro corresponde a um dia de "contação de estórias" de Kvothe, a personagem principal, a um cronista que o visita em sua hospedaria.
Kvothe é um arcanista, ou seja, estudou na Universidade onde aprendeu desde magias e simpatias até medicina e artificiaria.
A resenha completa está aqui e também te dei 6 Razões para se Apaixonar por Patrick Rothfuss, onde falo mais de um segundo coadjuvante que conquistou meu coração, Bast.

Quem você adicionaria nesta lista? Deixe aí nos comentários!


Das roupas que vestimos aos amigos com quem nos relacionamos, a música define muito de nossa personalidade. Enquanto fazemos o trabalho árduo de formar nossas identidades, nos apoiamos em trilhas sonoras. Os livros da lista de hoje falam sobre isso, e as "paisagens sonoras" que eles criam podem se tornar leituras inesquecíveis para você.

Shine, Vol.1: Uma Chance de Brilhar, de Jessica Jung
Rachel Kim é uma garota de dezessete anos de idade, com descendência sul coreana e americana, foi recrutada ainda criança por uma grande gravadora na Coréia do Sul chamada DB Entertainment. Rachel está alcançando a data limite na qual a gravadora cuidará de sua carreira e ela sente dificuldades de acompanhar o ritmo intenso e extremamente competitivo para tornar-se uma das cantoras de uma girl band de K-Pop em formação. 
A própria autora, Jessica Jung, fez parte de um grupo feminino chamado Girl's Generation, e muito do que acontece no livro é parte de sua biografia e de suas experiências com o processo, as positivas e as negativas.
Para quem gosta de K-Pop, este livro pode ser uma ótima recomendação.

Amor e Sorte, de Jenna Evans Welch
A protagonista, Addie, está em viagem de férias com a família na Irlanda e esta viagem está sendo apenas uma fonte de frustração. Ela ainda está arrasada pelo término de um romance e, em paralelo, ela e seu irmão, Ian, estão cada vez mais distantes, o que também lhe causa sofrimento, principalmente por causa das brigas constantes.
Em meio a este contexto, o que parece ajudar Addie a retomar o rumo de sua vida é um festival de música que ela e o irmão vão na companhia de um desconhecido que lhes deu carona. O ambiente do festival e as músicas, aos poucos, fazem com que Addie se reconecte consigo mesma, com seu irmão e com seu futuro.

A Música que Mudou Minha Vida, de Robin Benway
Audrey começa a namorar Evan, um músico amador, e este escreve uma música para ela. No entanto, nenhum dos dois estava preparado para o fato de que a música se tornaria um hit nacional, alavancando a carreira de Evan como músico profissional e, ao mesmo tempo, tornando Audrey uma celebridade.
Além disso, é bom mencionar que a música, na verdade, é sobre o rompimento deles, o que traz perguntas inconvenientes e uma atenção indesejada à vida de Audrey que, até então, era uma adolescente comum.
O enredo progride ao ponto que eles são convidados pela MTV para falar sobre o relacionamento e o rompimento.
Este livro trata mais dos bastidores e consequências do mundo da música, ainda que de um jeito cômico.

As Variações de Lucy, de Sara Zarr
Lucy Beck-Moreau é, desde criança, uma pianista famosa, contratada para tocar em concertos e festivais ao redor do mundo, na companhia rígida de seu avô e sua mãe. Quando ela está perto de completar dezesseis anos de idade, vários eventos em sua vida fazem com que Lucy se sinta perdida e sozinha, entre eles uma morte e uma traição (que não vou detalhar por causa de spoilers). 
Aos poucos, ela também percebe que o controle rígido de sua família a está sufocando e impedindo que ela conheça sua verdadeira personalidade (e seus reais interesses). Neste ponto, ela conhece Will, um professor de piano que a ajuda a resolver várias destas questões pendentes.
Uma boa leitura para quem gosta de música clássica e livros sobre relacionamentos familiares.

Nick & Norah, Uma Noite de Amor e Música, de Rachel Cohn e David Levithan
Nick gosta de música indie e gosta de percorrer New York encontrando novos lugares e novas bandas, e num destes shows, escutando punk rock, ele conhece Norah, tentando evitar sua ex-namorada. Norah e Nick não tem nada em comum  a não ser o gosto musical.
Eles decidem, então, sair pela cidade em busca de uma banda misteriosa (e suportamente muito cool), o que os aproxima em muitos níveis. 
Cada capítulo alterna os pontos-de-vista de ambos os personagens e inclui uma série de referências musicas e à cultura pop. É uma história famosa, que já foi até transformada em filme, e pode agradar a muitos leitores do blog.

E você, conhece mais algum livro que deveria estar nesta lista? Deixe aí nos comentários que vou adorar saber!



Eita que estou avançando na leitura desta trilogia mais rápido do que eu esperava. No post de hoje, falarei sobre o segundo volume da série Tons de Magia, "Um Encontro de Sombras", escrito por V. E. Schwab.

Para ler a resenha do primeiro volume, veja este post: Sugestão de Leitura | Tons de Magia, Vol. 1: Um Tom Mais Escuro de Magia, de V. E. Schwab

Vou partir do princípio que você já está familiarizado(a) com essa trilogia e com o primeiro volume.
Em "Um Encontro de Sombras", Kell e Lila se separam. Lila vai explorar o mundo e consegue fazer parte da tripulação de um navio, que é o mais perto que consegue chegar do seu verdadeiro sonho, que é ser a capitã da própria embarcação. Kell sofre as consequências (literal e metaforicamente) do vínculo mágico que criou com Rhys para preservar sua vida e segue enclausurado no castelo, uma vez que o rei e a rainha da Londres Vermelha estão decepcionados com ele.
Tanto para Kell quanto para Lila, a saída para lidar com as inquietações é participar clandestinamente de um torneio de magia chamado Essen Tasch. O capitão do navio que agora Lila faz parte, Alucard Emery, também participará do torneio e descobrimos que ele é ex de Rhys, quando foi expulso da Londres Vermelha pelo próprio Kell, como punição por Emery ter partido o coração de seu irmão.
Rhys cria um personagem para que Kell participe do torneio, chamada Kamerov Loste, pois, devido ao vínculo que eles tem, Rhys percebe que o irmão está profundamente infeliz com o arranjo de coisas que o rei estabeleceu, e resolve fornecer algum tipo de estímulo/diversão a Kell. Lila, por outro lado, com a ajuda de Alucard, tira um dos competidores do torneio e assume sua identidade.
Em paralelo, Holland ressuscita na Londres Branca e começa a bolar um plano para subjugar Kell e se vingar dele, tornando-se agora rei e buscando uma forma de reviver a glória da Londres Branca.

Gostei do torneio porque V. E. Schawb introduz outros países do universo da Londres Vermelha, com seus respectivos idiomas e costumes, o que achei muito interessante de ler. A dinâmica do torneio também foi muito boa, mostrando na prática como a magia dos Elementos funciona e as nuances entre cada participante. Eu fiquei entretida nas disputas, não apenas porque fiquei curiosa para saber quem ganharia (e se Kell e Lila seriam descobertos), mas porque a dose de ação veio bem para o ritmo do enredo.

Também gostei que Rhys ganhou destaque na história e da chegada de Alucard. Não me entendam errado, eu adoro tanto o Kell quanto a Lila - principalmente a Lila - mas já era hora de mais personagens aparecerem na trama para movimentar as coisas. Rhys é um ótimo complemento de Kell, como eu já havia dito na resenha do primeiro volume, e achei perfeitamente coerente como ele reage ao vínculo mágico entre ambos. Alucard foi muito bem construído por Schwab e, sedutor que é, me seduziu também. Eu cairia na lábia dele facilmente, e daí é fácil entender como ele foi capaz de despedaçar o coração de Rhys no passado. 

Lila fica ainda maior e melhor, com a decoberta dos seus poderes e da aparente habilidade de desacelerar o tempo. O fato do arco de desenvolvimento dela ser o inverso de Kell (ela fica cada vez mais forte enquanto ele fica cada vez mais debilitado) deixa tudo ainda mais interessante. E, é bom dizer que, mesmo debilitado, Kell continua sendo muito poderoso. Eu acho que Lila vai se tornar ainda mais poderosa que ele no terceiro volume, mas veremos. A única ressalva que eu faria em relação a Lila é que, às vezes, eu tive a sensação de que as coisas estavam muito fáceis para ela, mas talvez Schwab tenha guardado algo para o próximo livro.

Foi uma leitura fácil, simples e gostosa, que me deixou ainda mais intrigada para terminar a trilogia. Por isso, é uma leitura que eu recomendo.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 


Natalia Ginzburg é uma dessas escritoras que escreve tão bem sobre relacionamentos e família que eu quase sinto vontade de tentar escrever estes temas também (ao invés de fantasia). Separei os três principais motivos para você ler esta coletânea de contos chamada "As Pequenas Virtudes".

Meu primeiro contato com a Natalia Ginzburg foi em O Guia de Leitura de Elena Ferrante, e eu jamais poderia ignorar uma recomendação de leitura vinda de uma das minhas escritoras preferidas. Embora eu não tenha encontrado o livro que referencio neste guia, resolvi conhecer Ginzburg através desta antalogia, para ver se eu ia mesmo gostar do estilo dela. E gostei.
Além disso, posso definitivamente dizer que os escritores italianos são incríveis, como já tinha dito neste post: Desafio Livros pelo Mundo: 3 escritores italianos que você precisa conhecer

Mas vamos aos motivos para ler este livro.
1. O estilo de escrita
Natalia Ginzburg tem um estilo de escrita que eu invejo e que eu jamais seria capaz de reproduzir, que é mais ou menos a mesma vibe de Elena Ferrante e Ernest Hemingway. Ela consegue perceber as camadas mais escondidas dos personagens, aquelas coisas que queremos manter em segredo ou esconder do mundo (pelos mais diversos motivos), e traz à tona exatamente estas coisas que não deveriam ser ditas nem expostas, mas faz de um jeito que o leitor sente que está compartilhando o tal segredo com o personagem, como se fizesse parte de uma confissão. Além disso, o ritmo das frases e as escolhas de palavras de Ginzburg transformam alguns trechos quase em poesia, o que é muito lindo de se ler.
Neste livro em específico, como são 11 contos compilados ao longo de toda a sua carreira, o estilo de escrita dos primeiros contos é diferente dos últimos, e dá para perceber bem a evolução da escritora ao longo do tempo. Ela começa mais concreta e termina mais abstrata, é a melhor explicação que consegui encontrar.

2. O posicionamento sobre ser mãe e ser escritora
Ginzburg acreditava que, sem uma vocação, a vida pode se tornar bem vazia. É claro que nem todo mundo tem o privilégio de encontrar esta vocação (e menos ainda tem o de ganhar dinheiro com ela), e o fato de vivermos em uma sociedade tão esquisita só reforça a teoria dela, na minha opinião.
No caso dela, e no meu, a vocação é escrever, e eu nunca li nada tão bonito sobre ser escritor(a) como o que Ginzburg escreve em um dos contos. 
Eu também gostei quando, em um conto na sequência, ela mostra que ser mãe não é a vocação dela e que foi algo que aconteceu por acaso, sem grandes expectativas ou emoções de sua parte, e que no fundo ela teve medo que a maternidade a afastasse de sua essência. Me identifiquei muito e fiquei emocionada enquanto lia. 

3. A melancolia
Eu costumava ser consumida pela minha melancolia, como fica claro pelos primeiros posts do Perplexidade e Silêncio, quando eu escrevia contos autorais (você pode ler aqui). Com o tempo, fui aprendendo que eu precisava dosar essa melancolia na minha vida, pois ela estava me levando a lugares muito sombrios dos quais eu estava tendo dificuldade de voltar. 
No caso dos contos de Ginzburg, eu senti que ela teve a medida perfeita entre melancolia, vontade/alegria de viver e "sangue nos olhos", o que nem sempre é fácil de encontrar na literatura. E acho que é essa medida que fez que me inspirar tanto pelo jeito que ela escreve.

Se você gosta de Contos, tenho uma categoria aqui no blog dedicada a este gênero da literatura, que você pode conferir aqui.

Você tem alguma leitura similar para me indicar? Deixe aí nos comentários que vou adorar saber!


Estou tão contente por ter encontrado mais uma trilogia para me jogar de cabeça e esquecer da realidade. Sempre li resenhas muito favoráveis a V. E. Schwab e agora finalmente entendi o porquê do hype. No post de hoje, falarei sobre o primeiro volume da série Tons de Magia, "Um Tom Mais Escuro de Magia".

O protagonista da trilogia é Kell Maresh, um dos últimos Antari que existem no mundo. Os Antari tem a habilidade de transitar por dimensões paralelas através da magia de seu sangue. Kell nomeou estas dimensões como Londres Cinza (sem magia), Londres Branca (magia maligna), Londres Vermelha (magia benigna) e Londres Preta (foi destruída pela magia). Apenas a Londres Cinza chama-se, de fato, Londres, as demais dimensões estão geograficamente localizadas onde fica a "nossa" Londres mas tem outros nomes, configurações e idiomas. 
Kell tem um olho completamente preto (inclusive a parte branca ao redor da íris) e um olho azul, que é o que o identifica como Antari, e trabalha para a realeza da Londres Vermelha, que o adotou como um filho. Há somente mais um Antari, Holland, que é escravo da realeza da Londres Branca e, claro, eles não se gostam.
No primeiro volume, "Um Tom Mais Escuro de Magia", Kell é surpreendido ao receber um pedaço da Londres Preta que, teoricamente, tinha sido completamente lacrada para evitar que o mal se espalhasse para as outras Londres. Trata-se de uma pedra preta, carregadíssima de magia, que acaba por dominar completamente quem usa o seu poder. Para evitar que a pedra chegue às mãos erradas (leia-se a realeza da Londres Branca), Kell vai viajar até a Londres Preta para devolver o atefato ao seu lugar, o que é uma viagem perigosíssima. No meio do caminho, ele encontra Lila, uma ladra da Londres Cinza que vê essa aventura como uma oportunidade de libertação.

Começando por Lila: eu adorei essa personagem, sobretudo porque ela me lembrou a Vin de Brandon Sanderson (e qualquer coisa que lembre o Rei Brandon Sanderson ganha meu coração). Senti que a Lila é o que a Aelyn (Trono de Vidro - Sarah J. Maas) deveria ter sido. Gosto da profundidade que ela tem e também da coerência ao longo do enredo, tanto nas suas reações quanto na sua forma de ver o mundo. Também adorei o espírito independente de Lila e da dinâmica existente entre ela e Kell. Me diverti bastante nas cenas em que ela aparecia e fiquei curiosa para saber o que acontece com sua personagem ao longo da trilogia.

Outro ponto muito positivo da história é o sistema mágico criado por Schwab. As regras ficam claras no decorrer da leitura e Schwab fez um ótimo trabalho descrevendo e explicando as dimensões paralelas e, por isso, fiquei muito entretida imaginando as diferentes Londres. Há riqueza de detalhes na medida certa, nem de menos e nem de sobra, o que faz o ritmo da leitura ser muito bom.
E fiquei particularmente curiosa para brincar com a tábua de elementos e decobrir em qual deles estaria a minha magia (acho que na Terra).
Ah, e Schwab criou dois idiomas, um para a magia e outro que se chama aersiano. Qualquer escritor(a) que tem a capacidade de inventar um idioma (com regras gramaticais e tudo o mais!) ganha meu respeito.

Também me conectei a Kell, principalmente depois de Schwab mostrar o relacionamento entre ele e Rhys, seu irmão adotivo. Rhys é um ótimo complemento a Kell, um personagem que serve ao propósito de intensificar o protagonista. Através de Rhys, conhecemos as vulnerabilidades de Kell, entendemos as camadas que exitem por baixo da magia do Antari e temos um vislumbre de seu passado, que espero que seja mais explorado nos próximos volumes. 
Sinto que Holland teve a mesma função de Rhys na história, de colocar Kell em perspectiva para que o leitor fosse capaz de entender melhor seu protagonista.

O que eu mais gostei deste livro é que ele não é pretensioso e não tem a "mania de grandeza" de "Trono de Vidro" (que foi o principal motivo que me levou a abandonar a série de Sarah J. Maas). É uma leitura gostosa, que entretém, que me transportou para outro mundo e me fez imaginar um monte de coisas legais e, para mim, isso é tudo o que se pode esperar de um livro de Fantasia.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

 

Raramente leio poesia mas, de vez em quando, me deparo com uma autora ou com uma obra que desperta minha curiosidade para abrir uma exceção. Por isso, hoje falarei da coletânea de poemas "Um Útero é do Tamanho de um Punho" de Angélica Freitas.

Caso você goste deste estilo literário, sugiro você navegar também pelos links abaixo:
12GLCGM | A Bruxa Não Vai para a Fogueira Nesse Livro, de Amanda Lovelace
Top 5 | Cinco poetas e poetisas que você precisa conhecer

Gaúcha e jornalista, Angélica Freitas já morou em outros países até que recentemente retornou para sua terra natal, onde mora atualmente. Seus primeiros poemas foram publicados em espanhol em uma coletânea na Argentina, depois ganharam mais popularidade no Brasil e já foram traduzidos para diversos países. 
"Um Útero é do Tamanho de um Punho" foi publicado em 2012 e até hoje é conhecido como uma das primeiras obras feministas do gênero, abrindo caminho para tantas outras escritoras falarem sobre feminilidade, sexualidade e libertação. 

São 35 poemas, não muito longos, então o livro é curtinho e dá para ler em uma sentada só. A idéia dos poemas é mudar o lugar da mulher na poesia. Historicamente, os poemas eram escritos por homens e as mulheres sempre foram retratadas quase como seres mitológicos - perfeitas, românticas, lindas, submissas, objetos de adoração. Por isso, Angélica escreveu de uma forma que a mulher, não apenas é a protagonista dos poemas, como faz questão de compartilhar seu ponto-de-vista cru, verdadeiro e sincero sobre o que é ser mulher nesse mundão esquecido por Deus.

Mas, mesmo assim, não consegui gostar dessa leitura. Eu me esforcei, juro, e até me senti meio burra. Li tantas resenhas da mulherada apaixonada e fanaticamente falando bem dessa obra que fiquei me perguntando se eu tinha algum problema por ter sentido exatamente o oposto.
A primeira coisa que me vem à mente sobre este livro é "pretensioso". Há uma ambição por trás dos poemas que eu admiro, mas a execução saiu muito rebuscada, meio arrogante, como se você precisasse ser uma pessoa tremendamente intelectual para captar a mensagem. E isso, na minha opinião, segrega, não une, e eu já garro ranço quando isso acontece. (O mundo já segrega o suficiente, pra quê fazer isso com a arte/cultura também?)

Outra coisa que não gostei é que os 35 poemas parecem o mesmo e, consequentemente, nenhum me impressionou. Nem mesmo um pedacinho de um deles, ou uma frase bem construída - nada. Li do começo ao fim sem sentir nenhuma emoção, então foi um livro que passou batido por mim. O que é um baita ponto negativo, afinal, o livro é feito para mulheres como eu, que querem conquistar um lugar diferente, dentro e fora de mim. Não rolou. Só senti sono e o ranço mencionado acima.
Não achei beleza nem inspiração aqui, mas fico feliz - de verdade - que estes poemas tenham tocado tantas mulheres, sinal de que a Angélica conseguiu representar algumas realidades e falar com algumas de nós. 

E, por fim, a repetição das palavras me deixou doida. Que coisa chata, minha nossa senhora. Se a intenção era adicionar profundidade ou significado com isso, para mim não funcionou.

Para não dizer que não estou me esforçando para encontrar aspectos positivos, gostei do tom sarcástico e irônica da Angélica, e do humor ácido que ela coloca em alguns poemas. 

Assim, eu acho que recomendo a leitura apenas para que cada um(a) tire suas próprias conclusões e também pelo simbolismo de uma obra como essa em um país como o nosso. E como ele é curtinho, não ocupa muito tempo/energia, o que é bom, mas não posso dizer que gostei dele.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 



A vida é muito curta para insistir em um livro que você não está gostando e, por isso, não tenho nenhum problema em desistir de uma leitura e, mais ainda, de uma série que não está me agradando. No post de hoje, separei mais alguns exemplos de séries que não consegui ler até o final.

Para ver as outras séries que desisti de ler, veja os links abaixo:
5 séries literárias que desisti de ler, parte 1
5 séries literárias que desisti de ler, parte 2

Série "Trono de Vidro", de Sarah J. Maas

Nossa, essa série me doeu o coração desistir, porque eu tentei, acredite. Eu li os cinco primeiros volumes da série, que é composto de oito volumes, mas realmente não consegui seguir adiante. No meio do quarto volume, eu já pensei em largar porque a leitura estava muito arrastada, aí me esforcei e dei mais uma chance a Sarah, lendo o quinto, mas... Não deu.
O principal motivo pelo qual desisti da série foi o ritmo dos acontecimentos e o estilo de escrita de Sarah. Eram tantas e tantas páginas com nenhum evento relevante, diálogos bestas que não faziam a história avançar e um clímax que nunca chegava. Capítulo após capítulo, fui perdendo muito o interesse e me via pensando em outras coisas em vez de prestar atenção na leitura.
Além disso, achei insuportável o relacionamento de Aelin e Rowan, e foi ficando pior a cada volume. Não gostei dela e nem dele, e como ambos são os protagonistas de todo o enredo, perdi a vontade de seguir a leitura. 
Se você quiser ver as resenhas sobre os cinco volumes que li, navegue por estes links: Vol.1: Trono de Vidro, Vol. 2: Coroa da Meia-Noite, Vol. 3: Herdeira do Fogo, Vol. 4: Rainha das Sombras, Vol. 5: Império das Tempestades

A Saga do Bruxo Geralt de Rívia, de Andrzej Sapkowski
A saga acontece em um continente sem nome. Após um período de guerra entre elfos e anões, os anões recuaram para as montanhas e os elfos se estabeleceram nas planícies e florestas. Os colonos humanos chegaram, iniciando uma série de guerras, e se tornaram dominantes. As raças não humanas, agora consideradas cidadãos de segunda classe, costumam viver em pequenos guetos dentro de assentamentos humanos.
Geralt, o protagonista, é um bruxo que sofreu diversas mutações no processo mencionado acima e tem alguns poderes e habilidades especiais, e ele os utiliza para resolver problemas das aldeias em troca de dinheiro. 
Fiquei interessada em ler esta saga depois de assistir a série do Netflix "Witcher", mas acabou sendo uma baita decepção. O estilo de escrita de Andrzej é chato, as descrições são maçantes, o ritmo é meio forçado e não consegui me vincular a nenhum personagem, nem mesmo a Geralt. Li os dois primeiros volumes da saga e desisti sem dor no coração.
Para ver as resenhas dos dois volumes que eu li, veja: Vol. 1: O Último Desejo, Vol. 2: A Espada do Destino

A Passa-Espelhos, de Christelle Dabos
A série "A Passa-Espelhos" é composta de quatro livros e a personagem principal é Ophelia, uma menina que morava com a família em Anima e tem a habilidade de atravessar espelhos. Em Anima, as pessoas tem o poder de conversar com objetos, saber suas personalidades e ouvir o que eles tem a dizer. Ophelia consegue fazer isso também e, quando toca um objeto, seja ele qual for, ela consegue ver toda a história daquele objeto, desde seu primeiro dono, o que implica que ela descobre os segredos das pessoas que o tiveram ao longo do tempo.
Eu li somente o primeiro volume e desisti porque detestei os dois protagonistas, Ophelia e Thorn, a quem Ophelia foi prometida em casamento. Ophelia é irritantemente passiva e linear, fiquei me perguntando o que raios Christelle tinha em mente ao fazê-la personagem principal. E Thorn é abusivo, idiota, babaca, também linear, sem nenhum carisma ou apelo. Mal consegui chegar ao final do primeiro volume e, se você quiser mais detalhes, leia a resenha: Vol. 1: Os Noivos do Inverno

A Trilogia das Almas, de Deborah Harkness
A história é narrada em primeira pessoa por Diana. Historiadora, ela passa seus dias no fundo das estantes da Livraria Bodleiana na universidade de Oxford. Ela vem de uma linhagem antiga e famosa de bruxas que remonta à Salem no século 17, mas se recusa veementemente a ser uma bruxa, o que a leva a recusar e ignorar todos os seus poderes e qualquer forma de magia, por menor que seja. Um dia, no meio de seus estudos, ela involuntariamente invoca um manuscrito alquímico enfeitiçado e essa sua descoberta cria uma agitação fantástica no submundo. Uma horda de demônios, bruxas e vampiros começa a segui-la e a ameaçá-la, de forma cada vez mais violenta, até que o vampiro Matthew começa a protegê-la.
Também não consegui passar do primeiro livro dessa trilogia. O relacionamento entre Matthew e Diana é ridículo e forçado, a protagonista Diana é muito mal desenvolvida e, por algum motivo que só Deborah Harkness sabe, ela resolveu escrever longas e entediantes descrições de vinhos e comidas a cada cena de Matthew. Foi uma leitura sofrida e você pode ver mais motivos que me fizeram desistir neste post: Vol. 1: A Descoberta das Bruxas.

A Terra Partida, de N. K. Jemisin
Essa série eu me senti mal de desistir porque N. K. Jemisin ganhou muitos prêmios com as obras, mas eu não consegui me vincular a nada e a ninguém.
A premissa da série é que o planeta virou um único supercontinente e, de tempos em tempos, um evento climático catastrófico extermina a maioria da população, que precisa começar tudo de novo, e cada um destes ciclos é chamado de Estação.
E aqui foi meu maior problema com a leitura. Jemisin não se dá ao trabalho de explicar nada sobre o mundo, o sistema e o background de sua história. Eu tive que ir procurar um monte de coisas na Wikipedia para começar a entender o que estava acontecendo e, depois de um tempo, cansei e desisti. E, além disso, algumas partes da história são narradas em segunda pessoa. Não passei do primeiro volume e não me arrependo. Para saber mais sobre esse livro, veja este post: A estranheza de ler um livro narrado em segunda pessoa

E você, tem alguma série que você desistiu de ler? Deixa aí nos comentários que vou adorar saber!

 

Quando o roteiro da adaptação ao cinema é feito pelo próprio escritor da obra, eu fico imediatamente interessada em ler o livro para comparar com o filme. É o que aconteceu com "O Mundo em Caos", livro de Patrick Ness que virou um filme estrelado por Tom Holland e Daisy Ridley. Neste post, falarei sobre ambas as obras e as principais diferenças entre elas.

"O Mundo em Caos" é o primeiro livro de sua trilogia Chaos Walking, publicada entre os anos de 2008 e 2010. A premissa da obra de Ness é que a Humanidade precisou deixar a Terra e se estabeleceu em uma colônia em outro planeta. Lá, é possível visualizar e ouvir os pensamentos dos homens, mas não das mulheres, aparentemente por causa dos "germes" emitidos pelos Spackles, as criaturas que já habitavam o planeta antes. Todas as mulheres morrem e restam apenas os homens, com o Barulho insuportável que eles emanam de seus pensamentos caóticos (daí o título do livro, da trilogia e do filme).
O protagonista, Todd Hewitt, no livro está prestes a se tornar um homem pelas regras da sociedade em que vive em Prentisstown. Passeando pelo pântano com seu cachorrinho Manchee, cujos pensamentos também se ouvem porque ele é macho, Todd descobre um ponto sem nenhum pensamento no meio da floresta, em completo silêncio, o que é assustador para ele, que já nasceu nesse planeta cheio de Barulho. Logo depois, seus pais adotivos o mandam embora da vila sem maiores explicações.

No filme, Todd é interpretado por Tom Holland e aqui vem a primeira diferença. No livro, Todd é mais jovem, algo em torno dos 13 ou 14 anos de idade, enquanto no filme Holland interpreta um Todd mais velho, na faixa dos 20 anos. 
Além disso, no filme não fica claro que é possível escutar os pensamentos de qualquer ser vivo que seja macho, não apenas dos homens. Imagino que eles tenham feito esse ajuste para que o expectador fique focado em Todd e em seus pensamentos, o que funciona bem na tela. E, no livro, me diverti horrores com o Barulho do Manchee. Então as duas coisas deram certo, cada uma a seu modo.

Por outro lado, eu gostei mais do filme quando eles mostraram um dos Spackles que Todd encontra no pântano. Eu não consegui visualizar como as criaturas seriam no livro e o filme trouxe isso muito bem. Li algumas pessoas dizendo que a cena com o Spackle no filme ficou um pouco avulsa, pois no livro há um significado mais profundo no amadurecimento de Todd, mas eu particularmente não me incomodei com isso.
Também achei que não deram a importância devida ao personagem de Davy Jr, o filho do prefeito, interpretado por Nick Jonas. No livro, ele foi muito mais relevante para a trama do que no filme e não senti que o personagem foi bem aproveitado. Por outro lado, o prefeito em si tem mais destaque e Mads Mikkelsen estava ótimo no papel, e isso aconteceu porque, na trilogia, o prefeito vira um super vilão que quer dominar todo o planeta, incluindo os Spakles, o que não chega a ser mostrado no filme.

Mas a principal diferença é que o filme compila a trilogia inteira. Eu só li o primeiro volume e ele termina quando Todd sai da fazenda e descobre que há uma mulher no pântano, daí o Silêncio que ele encontrou. No filme, no entanto, ele já sai da fazenda com Viola consigo, ele mostra a garota ao prefeito de Prentisstown quando a encontra no pântano, e há todo o desdobramento dos outros dois livros de Ness. Os livros são bem curtinhos (li o primeiro em um dia!), então acho que faz sentido juntar a história inteira em apenas um filme. 
Como eu não li os livros onde Viola aparece, o que vi pela internet é que o filme não fez juz ao seu arco e que ela é muito mais interessante no livro. Talvez seja verdade pois achei Viola meio apagada no filme e não me apeguei a ela como aconteceu com Todd (Holland deixa qualquer personagem carismático, é impressionante).
Eu fiquei incomodada com a parte onde Viola precisa se comunicar com a nave que vai levar 4 mil pessoas para o planeta, depois de uma viagem espacial de mais de 60 anos. Para mim, esse é o ponto principal de toda a história e é mencionado rapidamente, apenas umas duas ou três vezes ao longo do roteiro. Queria ter visto mais disso.

O livro ou o filme? Embora eu ache que o filme poderia ter sido um pouquinho mais longo para retartar alguns desses aspectos que ficaram perdidos, no geral, o filme faz um bom trabalho em manter a história da trilogia intacta. Isso desperta vontade de ler os livros, aprofundar os personagens e descobrir mais detalhes sobre tudo, porque a história em si é muito boa. Eu adorei ambos, livro e filme, e pretendo continuar lendo a trilogia.
Então, desta vez, a disputa dará em empate.

Você viu o filme? O que achou? Deixe aí nos comentários que vou adorar saber.


Os contos de fada continuam sendo extremamente populares e despertam o interesse de leitores de todas as idades, das crianças aos adultos. E, em tempos difíceis, os contos de fada nos proporcionam alívio, permitindo que a gente desligue da realidade um pouquinho. No post de hoje, separei dicas de leitura para quem gosta do gênero (e já assistiu a todos os filmes da Disney nesta quarentena).

Se você quiser ler mais sobre o tema, veja também os posts abaixo:
Por que os contos de fada ainda são populares?
Desafio Livros pelo Mundo | Dinamarca: Hans Christian Andersen e seus contos de fada (vídeo)
Top 5 | Cinco livros inspirados em contos de fada
As características dos contos de fada

Trilogia Winternight, Vol. 1: O Urso e o Rouxinol, de Katherine Arden

Este livro é o primeiro volume de uma trilogia chamada Winternight, cuja protagonista é a garotinha Vasya. O cenário da história é digno de um conto de fadas, pois ela se passa em uma pequena vila da Rússia medieval, vila esta que é habitada por uma série de criaturas mágicas. Todas as criaturas foram inspiradas no folclore russo e temos árvores falantes, elfos domésticos, espíritos da floresta, e por aí vai. Somente Vasya é capaz de vê-los e de se comunicar com eles.
A mãe de Vasya morreu ao dar à luz a ela e seu pai se casa de novo com Anna. Anna, tremendamente católica, acha Vasya esquisita e a rotula de bruxa. Daí em diante, Vasya tenta não apenas se livrar da madrasta, mas sobretudo proteger as criaturas mágicas. 
Para ler a resenha completa, clique aqui.

Trilogia Kingdom of Fire, Vol. 1: Uma Sombra Ardente e Brilhante, de Jessica Cluess
Este livro é o primeiro volume da trilogia Kingdom of Fire. A premissa de toda a série, que se passa na Inglaterra Vitoriana, é de que o mundo será destruído pelos Ancestrais, sete criaturas horrendas e muito assustadoras que conseguiram romper o selo de proteção dos feiticeiros e espalham morte e terror.
A protagonista da história é Henrietta, uma orfã de dezesseis anos que leciona Matemática para as crianças de seu orfanato e tem poderes de dominação do fogo. Um dia, o feiticeiro Agrippa chega ao orfanato e a leva embora, sob o pretexto de que ela é a garota de uma profecia, a Escolhida que vencerá os Ancestrais. 
Foi uma leitura que eu adorei, do começo ao fim, e você pode conferir a resenha completa aqui. Também li e resenhei o segundo volume, "Um Veneno Sombrio e Sufocante", aqui.

Em Algum Lugar nas Estrelas, de Clare Vanderpool
Jack Baker perdeu a mãe logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Seu pai, que combateu na guerra, volta com Síndrome de Estresse Pós Traumático e não se sente apto a cuidar do filho sozinho e, por isso, o coloca em um internato. Lá, Jack conhece Early Auden, que o ensina a remar e o estimula a, juntos, procurarem por seu irmão Fish que está desaparecido.
Na cabeça tortuosa de Early, ele conectou a história de Fish à lenda de Pi. Early leu o livro "A Vida de Pi" de Yann Martel (que gerou o filme de 2012) e acredita que, tanto quanto Pi retornou ao lar, Fish também irá. E para adicionar mais uma cama de excentricidade à sua teoria, Early junta a lenda de Pi com o número Pi, e nas mais de duzentas casas decimais dele Early enxerga cores, situações, geometrias, toda uma narrativa de que mais ninguém acompanha.
Para ler a resenha completa, clique aqui.

Enraizados, de Naomi Novik

No reino de Polnya, a cada dez anos, uma menina é raptada pelo mago do Rei, apelidado de Dragão. Enclausurados numa torre antiga, ninguém sabe o que acontece entre o Dragão e a sua escolhida mas todos sabem que, ao fim dos dez anos, as garotas tornaram-se mulheres e decidem viajar pelo mundo, insatisfeitas com a vida provinciana na vila onde moravam.
Na vila de Dvernik, uma das nove que compõem o reino, todos acreditam que o Dragão vai escolher Kasia, a menina mais bonita e mais inteligente da região. Ao longo de toda a sua vida, Kasia foi treinada e educada para isso, e todos ficam muito surpresos quando Agnieska, uma menina "normal e sem atrativos" é escolhida em seu lugar.
Eu não gostei muito desse livro (descrevi os motivos aqui), mas acho que a leitura é válida para quem gosta de contos de fada.

E você, tem alguma recomendação de livros para adicionar nessa listinha? Deixe aí nos comentários que vou adorar saber!

 

Para o post de hoje, separei mais cinco escritoras e recomendações de leitura para você conhecer, agora completando uma lista com trinta nomes femininos super poderosos da literatura.

Se você quiser dar uma olhadinha nas outras escritoras sugeridas, navegue pelos links abaixo:

Margaret Atwood, Ursula K. Le Guin, Maggie Stiefvater, Katherine Mansfield e Arundhati Roy (parte 1)
Elena Ferrante, Gioconda Belli, Chimamanda Ngozi, Madeleine L'engle e Gillian Flyn (parte 2)
Celeste Ng, Naomi Alderman, Charlotte Perkins Gilman, Becky Chambers e Joanna Russ (parte 3)
Alice Hoffmann, Rachel Kushner, Maya Angelou, Ann Patchett e Octavia Butler (parte 4)
Madeline Miller, Sarah J. Maas, Maria Semple, Gail Honeyman e Gloria Steinem (parte 5)

Toni Morrison
Toni Morrison, falecida em 2019, é um dos grandes nomes da literatura negra mundial. Desde o seu primeiro livro, publicado em 1970, ela conseguiu grande projeção com sua literatura por abordar temas como racismo, luta de classes, violência contra as mulheres e escravidão, e muito dessa projeção aconteceu por causa do seu estilo de escrita. Toni escreve muito bem - muito. A escolha das palavras, a construção das frases, o jeito como ela descreve emoções, seus personagens, o ritmo da narrativa - tudo isso contribuiu muito para a sua credibilidade ao longo dos anos.
Aqui no Perplexidade e Silêncio, resenhei "O Olho Mais Azul", esse seu primeiro livro que mencionei acima. A protagonista é Pecola Breedlove, uma menina que foi engravidada pelo próprio pai e que ficou sem família depois que ele incendiou sua casa. Ela é abrigada pela família de Cláudia e Frieda, duas meninas da mesma idade de Pecola cujos pais tentam entender o que Pecola está passando, enquanto lutam para não morrer de miséria.
Para ler a resenha completa, clique aqui.

Alice Munro

Alice, canadense, é uma escritora referência quando se trata de contos. Seu estilo narrativo é considerado diferente porque ela consegue, dentro de uma história curta, ir e voltar no tempo ao longo do enredo, de forma que o conto fique mais profundo e detalhado que o esperado.
Outra característica de Alice são seus narradores oniscientes, ou seja, que sabem tudo o que todos os personagens fazem/sentem e prevê quais serão os conflitos entre eles. Ela costuma escrever sobre relacionamentos interpessoais, sobretudo famílias disfuncionais (e qual família não é? Taí uma coisa que me pergunto.)
Aqui no blog, falei sobre "Vida Querida", que ela diz ser seu último livro (ela está atualmente com 86 anos de idade). São 14 contos publicados ao longo dos anos no The New York Times. Por isso, é possível perceber que o tema central que conecta todos os contos é despedida. Separei meus três preferidos em uma resenha que você pode ler aqui.


Caitlin Moran
Caitlin Moran é uma dessas pessoas famosas que você tem vontade de virar amiga. Ela é a filha mais velha de oito irmãos, seu pai era bateirista de uma banda de punk rock, ela descreve sua experiência familiar como "pior que Jogos Vorazes", foi educada pelo Conselho do bairro que tinha dó da "enorme família de hippies" e começou sua carreira de jornalista entrevistando bandas grunge dos anos 90. Uau. Toma aqui meu Whatsapp, Caitlin.
No Perplexidade e Silêncio, a conheci quando fiz o desafio "12 Grandes Livros com Grandes Mulheres" e falei sobre "Do que é feita uma garota?". Johanna Morgan, uma adolescente de 14 anos, é a protagonista do livro, que já começa com uma cena (muito bem escrita) de masturbação. Johanna tem o mesmo background de Caitlin e, um dia, decide arrumar um emprego para ajudar a família. Ela começa trocando de nome e, aos poucos, vai se descobrindo e quebrando paradigmas. Eu amei esse livro e você pode ver a resenha completa aqui.

Lauren Groff
Conheci Lauren através do Guia de Leitura de Elena Ferrante. Ferrante pode recomendar o que ela quiser que eu saio correndo para ver do que se trata, rainha que é.
Lauren Groff é uma jovem escritora que atualmente vive em Nova York com seu marido e dois filhos.
Aqui no blog, resenhei "Destinos e Fúrias". Neste livro, a autora propõe uma visão narrativa diferente. Na parte chamada "Destinos", o romance de Lotto e Mathilde é vista de fora: um casal jovem, na casa dos 20 anos, vibrante, apaixonado e com um futuro brilhante pela frente, que causa inveja em todos ao seu redor. Em "Fúrias", o leitor se aproxima da realidade deste romance, vendo-o por dentro e vivenciando-o com as dores, amarguras e inseguranças dos personagens. Além disso, a primeira parte é narrada de forma linear e "perfeitinha", enquanto a segunda parte é mais caótica, confusa e sobreposta em seus eventos principais, refletindo como as personagem experimentam o romance.
Para ler a resenha completa, clique aqui.

Delia Owens
Acho que a coisa mais legal sobre Delia é que ela é zoologista e pós-doutorada em Comportamento Animal. Ela começou escrevendo livros sobre observação de animais selvagens na África com seu marido, Mark Owens. Eles viveram por vinte anos na África, quando seu marido foi acusado de matar um animal ilegalmente e eles retornaram para os Estados Unidos, se divorciando logo depois. Ela tem uma fundação para preservação da vida animal na Georgia.
"Um Lugar Bem Longe Daqui" acompanha a vida de Kya, uma menina que é abandonada por toda a família em um barracão no brejo e que, dia após dia, precisa aprender formas de sobreviver à fome, à miséria e à solidão. A narrativa acompanha o crescimento de Kya: no começo do livro ela tem seis anos de idade e, lá pela metade dele, está com dezenove. Ela vive completamente sozinha no meio do pântano e é seu relacionamento com a natureza do lugar que a afasta da depressão e do suicídio. É um livro triste, porém, muito bem escrito e super recomendo. A resenha dele está aqui.

Você tem alguma escritora para me recomendar, que ainda não foi mencionada nas listas anteriores? Deixe aí nos comentários que vou adorar saber!

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A Escritora

Na casa dos trinta anos, psicóloga de formação, mas escritora de coração. Procura os detalhes da vida que passam desapercebidos e as bonitezas que ninguém vê. Faz perguntas incômodas porque gosta de uma boa reflexão. Não caminha pelos lugares-comuns e, quando o faz, faz com convicção. Imagina, sonha e pensa demais. Fala pouco, mas quando fala, por favor preste atenção.

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